sábado, 23 de abril de 2011

Afinal, pra que serve a família real?

Tá, eu confesso. Antes eu achava a família real britânica um charme. Esse negócio de ter reis, rainhas, príncipes, guarda imperial, aristocratas... Tudo tão pomposo e exótico que parece ter saído diretamente das páginas de um livro de história.

E sim, de vez em quando ainda acho bonitinho. Acho a Rainha Elizabeth II uma graça, principalmente quando mostra ser pé-no-chão e sem afetações. A história do pai dela, ao vencer a gagueira, foi formidável. William e Harry não são tão ruins também, pelo menos parecem ter algum senso de realidade.

Mas e o intragável do Charles? Será que a monarquia será tão popular quando ele for rei? E o seu irmão Andrew, envolvido em várias maracutaias pelo mundo afora? E a sua sobrinha Eugene, que gastou milhões dos cofres públicos só porque queria viajar pelo mundo e precisava de segurança 24h por dia?

Esse é o problema da família real. Se forem pessoas legais, ótimo. Mas, se não forem, o país tem que aceitar assim mesmo. E pagar pelas suas despesas, que não são poucas. E o que eles fazem, mesmo? Ah sim, atraem turistas. E participam de cerimônias.

Mas, será que vale a pena tanto gasto? Até que ponto é válido manter essa família só por apego à tradição? Lembrando que, enquanto isso, o povo está sofrendo porque vários empregos e serviços públicos estão sendo cortados sob a justificativa de que o país está sem dinheiro.

A verdade é que, vendo pelo lado de dentro, não acho mais a família real assim tão espetacular. E não, provavelmente não assistirei o casamento real, pois estou achando esse hype todo bem brega mesmo. É, acho que no final das contas não sou mesmo muito romântica :-P

PS- Não sei se dá pra ver direito, mas a foto mostra uma estátua do famoso Henrique VIII, o tal que rompeu com a Igreja Católica.

segunda-feira, 21 de março de 2011

É primavera...

O dia de hoje, 21 de março, marca a chegada da primavera no hemisfério norte. E que chegada! Dia lindo, ensolarado, céu azul e temperatura agradável. O tipo de dia que te faz ter aquele impulso quase irresistível de jogar tudo pro alto e ir curtir a vida ao ar livre. Porque é isso que a primavera faz.

O verdadeiro significado da primavera, contudo, vai mais além. Não se compreende a primavera, em toda a sua promessa de renascimento, em toda a sua expansão de felicidade, sem ter experimentado as agruras do inverno.

E que inverno esse último. Chegou mais cedo, em novembro, atropelando o belo outono das matizes douradas. Trouxe um dezembro que ganhou o título de mais frio desde 1890. Muita neve, muita escuridão, muita roupa pesada e vontade de não sair de casa. Porque é isso que o inverno faz. Tolhe os movimentos. Suga a energia. Verdadeiro teste de força e coragem, o inverno.

Por isso, quando hoje caminhei pelas ruas ensolaradas, quando tirei o cachecol e o casaco e respirei o ar fresco e senti o calor do sol sobre a pele, me senti extremamente feliz.

Seja bem-vinda, primavera. Tenho te esperado há tanto tempo. E que todos nós sejamos felizes nesse novo ciclo que se inicia.

PS- No hemisfério sul o dia 21 de março marca a chegada do outono. Acho que se estivesse no Brasil estaria feliz também, pela promessa de um pouco de frio depois de um verão escaldante ;-)

quarta-feira, 2 de março de 2011

Ode à Natureza

Quando eu morava no Brasil, detestava natureza. Sempre gostei da Chapada Diamantina e de cachoeiras, é verdade, assim como tenho muito boas lembranças das águas mornas do mar da Bahia. Mas, se fosse pra ir pra uma fazenda ou lugar com mais mato, que ninguém contasse comigo, pois sempre me vi e senti como um ser da cidade.

É verdade que a natureza do Brasil é assustadora. Cheia de animais que podem te matar. Cheia de mosquitos que podem te passar doenças. Fora o verde profundo e intimidador das matas tropicais, especialistas em reter umidade e calor.

Ao viver no Reino Unido, contudo, desenvolvi uma relação mais amigável com a natureza. Talvez porque a natureza dos países temperados seja mesmo meiguinha, com as suas árvores de folhas delicadas, seus inúmeros tons de verde, e os esquilos e raposas e outros seres de contos de fada brincando nos gramados. Talvez por que a existência de quatro estações distintas traga consigo um certo compasso, um certo ritmo que impregna também a nós, seres humanos.

O fato é que volta e meia vou caminhar no parque, e a visão do verde me dá uma sensação de calma que eu antes julgava impossível. Não me sinto mais um peixe fora d'água ao deixar o ambiente urbano.

É, levou tempo, mas acho que a Natureza finalmente me conquistou.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

A Escócia, ainda.

Ganhei de presente de aniversário um tour pela Escócia. Pra vocês verem como é um país pequeno, deu pra praticamente ir de uma ponta a outra em um dia. Foi corrido, claro. E cansativo. Mas que lindo. Que linda, a Escócia.

Duas paisagens que me marcaram:

- As Highlands, as Terras Altas escocesas, que é como uma Chapada Diamantina com montanhas mais altas, só que sem pessoas ou cidades. Aliás, a beleza deserta foi o que mais me chamou a atenção; às vezes uma casa aqui ou ali, uma trilha para caminhadas, uma estação de trem abandonada, vestígios tão remotos que parecem pertencer à Antiguidade. Depois eu fiquei sabendo que no passado havia pessoas, milhões delas, que moravam nessas Terras Altas. Só que elas foram expulsas, pra dar lugar à criação de ovelhas. Sabe como é, na época, a lã era a principal matéria-prima da Revolução Industrial... E a essas pessoas, desprovidas da sua terra e do seu país, só restou imigrar pra cantos remotos do Império Britânico. Então o sangue dos Highlanders vive, nas veias dos que hoje se consideram americanos, canadenses, australianos, neozelandeses...


- O Loch Ness. Acho que todo mundo que tem mais de 25 anos deve lembrar daquele filme que passava direto na Sessão da Tarde. Pra ser sincera, foi mais por nostalgia desses boatos dos anos 80 que eu me interessei em ir até o norte da Escócia só pra conhecer o lago ("loch" é o nome escocês para "lago"). E como valeu a pena! E como não pensar, quando se olha para aquelas águas absolutamente negras, que elas não guardam algum segredo de tempos imemoriais? E como não ficar baratinado com a neblina, e com as margens cinzentas, e com a compridez do lago que parece que não acaba nunca? Isso sem falar na profundidade: Estima-se que a distância entre o fundo e a superfície seja mais alta que a torre Eiffel. Não, definitivamente não é surpresa que existam lendas de monstros naquele lugar. E quem sabe? Talvez não seja lenda mesmo...

Bem, meu relato sobre a Escócia termina aqui. Da próxima vez que escrever, é provável que eu volte a falar de Londres ;-)

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Como usar sua beleza para manipular pessoas

Ele é lindo, e sabe disso muito bem. Se aproxima de você com olhos enormes e passos leves. De repente, um pulo mais perfeito do que medalha de ouro em ginástica olímpica e pronto: Já era. Ele está no seu colo, ronronando, pedindo carinho. Dá umas voltinhas pra ver qual é a melhor posição, e espera pra ver se vc vai mesmo obedecer ao comando de afagar as orelhas. E aos poucos se acalma, primeiro abaixando as patas dianteiras, depois sentando num movimento elegante e suave. Se você estiver vestindo jeans, melhor, que dá pra alongar as garras. E assim ele fica, e ai de você se algo te distrair. Recebe um olhar majestoso e fuzilante, digno de um Luís XIV furioso.

Quando era mais nova, não tive oportunidade de ter animal de estimação, então hoje observo o comportamento dele com espanto e alegria, como se cada dia fosse um pequeno milagre. Esse post é uma homagem a esse poço de fofura e safadeza aí da foto. Ele se chama Anakin.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Os fantasmas de Edimburgo

É verdade. A capital da Escócia ostenta o título de cidade mais mal-assombrada do mundo. E faz sentido, com tantos ilustres poetas, inventores, políticos e pensadores que nasceram ou viveram na cidade.

Mas, mais do que isso, Edimburgo é a capital de um país que perdeu o status de país. É uma metrópole impregnada pelas memórias implacáveis de muitos séculos, e parece transpirar uma saudade sombria, da história, do sangue, da fome e da luta.

Ao contrário de York, que é organizada, romântica e bonitinha, Edimburgo é gótica, escura, cheia de arestas. Foi apelidada de "Auld Reekie" nos seus tempos antigos, algo como "Véia Fedorenta", pelo fato de agregar mais de 1,5 milhão de pessoas em uma circunferência de 1 milha (1,6km) de diâmetro. Não apresenta a Idade Média das donzelas e cavaleiros heróicos, mas sim a história de um povo sofrido e aguerrido em meio a doenças e ameaças constantes vindas de Londres. E a criatividade, e o humor, desenvolvido por aqueles que realmente conhecem as adversidades da vida.

Hoje em dia, todas essas histórias e pessoas de outrora passeiam alegremente pelas belas e agradáveis ruas da Edimburgo atual. Estão ali, e se apresentam aos turistas em passeios guiados, em lojas de roupas, em igrejas e castelos. Estão ali, resguardando a cidade, fazendo-a ficar mais interessante, mais atraente, mais humana. Estão ali, e se fazem sentir, esses verdadeiros fantasminhas camaradas.

PS. Para mais fotos de Edimburgo, clique aqui.

Uma nova janela

Mais de um ano se passou.

Basicamente, 2010 foi o motivo pelo qual o blog ficou parado. 2010 foi um daqueles anos pesados, entupidos de coisas pra se pensar e pra fazer. 2010 trouxe coisas maravilhosas e péssimas, grandes sonhos e algumas repentinas frustrações. 2010 trouxe muita insegurança mas também muito, muito aprendizado.

Agora, sinto que estou pronta para recomeçar. Afinal, depois de tudo, 2010 foi o ano que me deu uma nova janela.

E seja bem-vindo, 2011.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

O leão asiático


Para finalizar a série sobre a Ásia, um pouco sobre Cingapura. Para quem ainda não relacionou o nome ao lugar, devo confessar que eu também tive que procurar no mapa. Trata-se de uma ilhota localizada no fim da península da Malásia, a apenas 1 grau ao norte da linha do Equador. Ou seja: É quente. Muito quente. E úmido. MUITO úmido.

Pra quem acredita naquela baboseira de que não se pode ter desenvolvimento social e econômico em lugares de clima quente, taí o exemplo de Cingapura para desmentir. A cidade-estado, apesar de minúscula e sem muitos recursos naturais, soube se beneficiar do seu imenso e movimentadíssimo porto para se tornar um exemplo de organização e desenvolvimento.

Seu antigo cais, que um dia já foi um lugar amontoado de depósitos sujos, se tornou uma avenida cheia de restaurantes e bares badalados. O antigo centro histórico foi impecavelmente restaurado. Sua população altamente multi-cultural, com destaque para a presença dos malaios, chineses e indianos, consegue viver em relativa harmonia. Para coroar tudo, em 2006 foi construído o Singapore Flyer, uma imensa roda-gigante com vista para toda a cidade. "É maior que a de Londres", eles dizem, orgulhosos.

Desemprego, falta de moradia, violência urbana, sujeira nas ruas, nada disso existe em Cingapura. Obviamente, tudo isso tem um preço. Cingapura é uma ditadura, ainda que não das mais cruéis. O governo é o grande provedor, mas isso significa que as liberdades individuais são reduzidas. Coisas simples como jogar chiclete no chão geram uma multa de centenas de dólares, e todos, sem exceção, devem obedecer ao "sistema". Não é à toa que Cingapura é um exemplo do que chamam de "estado-babá".

A cidade-estado, que tem o leão como seu símbolo, conquistou a independência política e econômica depois de séculos de dominação malaia, indonésia e, por último, do falecido Império Britânico. "Está tudo muito bem, mas pra onde ir agora?", eles se perguntam. Bem, mesmo se eles continuarem onde estão, ainda assim estarão na frente de muitos outros. E não é qualquer um que pode se dar a esse luxo.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Milhões de turistas não podem estar errados


Quando eu tinha uns 13 anos, Bali estava na moda. Cigarros de Bali, tecidos de Bali, músicas falando de Bali. A ilhota indonésia ocupava o imaginário dos adolescentes que, como eu, frequentavam bastante a praia. Era como se Bali fosse o "verdadeiro" paraíso natural, um lugar exótico e quase místico, distante de tudo e de todos.

E eis que, cerca de 15 anos depois (meu Deus, como estou velha :p), vejo do avião a costa balinesa se aproximando, com seu extenso quebra-mar que a protege das ondas selvagens. A primeira coisa que me vem à cabeça é que, em Salvador, o mar é mais verde e o céu, de um azul mais escuro. E a segunda: Tudo bem. Mar e céu de um azul cristalino também fazem o meu tipo.

Obviamente, Bali é um dos destinos turísticos mais conhecidos do mundo. Por isso mesmo, é muito mais rica, limpa e organizada do que Yogyakarta. E eles estão em toda parte, e não são só holandeses: australianos, alemães, canadenses, ingleses, dentre outros, todos tentando tostar a pele e parecer à vontade nesse pedacinho de paraíso tropical.

Então vamos em rumo à cidade que é considerada a "verdadeira" Bali: Ubud, que fica no centro da ilha, no meio das montanhas. A cidade, que é uma gracinha, também é bastante turística, apenas é focada mais na parte religiosa e cultural — Os balineses, apesar de fazerem parte de um país muçulmano, ainda preservam a sua religião hindu.

Atrações em Ubud não faltam. A principal delas é a Floresta dos Macacos, um santuário ecológico onde vive uma espécie típica do sudeste asiático, chamada em português de Macaco-caranguejeiro. A floresta é relativamente pequena, mas apresenta templos e um cemitério hindu muito interessante. E bem, os macacos, bem-acostumados com os turistas, são um espetáculo à parte.

Mais para o centro da cidade, visitamos um belíssimo jardim de flores de lótus, seguindo depois em direção à extensa plantação de arroz que fica mais ao norte da cidade. Caminhada cansativa, mas que valeu a pena: a delicada engenharia de camadas desenhadas nas colinas, o múrmurio do vento por entre o verde-vivo da plantação, os pequenos templos envoltos em vastidão e camponeses com expressões cansadas, porém tranquilas. E então, eu pensei: Essa sim deve ser a verdadeira Bali.

E voltamos ao hotel, na praia de Sanur, acordando no dia seguinte de madrugada para reverenciar o nascer do sol. E depois o mergulho no mar, nas águas rasas, mornas e cristalinas do Oceano Indico. "Bali é super-lotada. É difícil achar um lugar nessa ilha que não tenha turistas", alguém me falou. Mas, confessa, vai. Não é tão ruim assim ;P

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Mais perto dos Deuses


A idéia é genialmente simples. Você começa no solo, no nível mais básico dos desejos e prazeres mundanos, mas ao longo da caminhada descobre a necessidade de refinamento espiritual, e segue um caminho em espiral em direção ao topo, conhecendo e se reconhecendo nas narrativas de pessoas com as mesmas experiências que você. E então, quando chega no topo, já está pronto(a) para se dissolver no mundo sem formas da imensidão do céu azul. E então, dizem eles, você atinge o Nirvana.

Esse é o caminho natural da vida segundo os antigos budistas javaneses. E Borobudur, o fantástico templo construído no século VIII d.C, é uma transcrição arquitetônica rigorosa desses preceitos. Situado num vale rodeado de (adivinhe!) vulcões, a cerca de 1 hora de Yogyakarta, é reconhecido como um patrimônio cultural da humanidade, além de ser o maior monumento do Hemisfério Sul.

Mas, no século VIII, as coisas eram um tantinho complicadas. Não eram só os budistas que clamavam o domínio da ilha; os hindus também estavam doidos para demarcarem terreno, e foi aí que Prambanan, outro patrimônio cultural da humanidade, foi erguido. Também a cerca de uma hora de Yogyakarta (mas em direção oposta a Borobudur), dessa vez em um considerável terreno plano, que acabou dando lugar também a outros templos menores e alguns, vejam só, são budistas.

Mas voltando a Prambanam: ao invés de um único grande templo, os hindus construíram um complexo intrincado, cujos três principais templos são dedicados às três maiores divindades da religião: Brahma (aquele que cria), Vishnu (aquele que mantém) e Shiva (aquele que destrói). Cada templo recebeu inscrições e estátuas relacionadas aos mitos de cada deus, incluindo grande estátuas dos animais utilizados por eles para transporte. Assim, Brahma possuía o cisne Hamsa, Shiva utilizava a grande águia chamada Garuda e Vishnu, o boi Nandi, o único cuja estátua sobreviveu.

Assim como Borobudur, trata-se de um conjunto arquitetônico incrível, ainda que uma parte tenha sido destruída por um terremoto em 2006.

De qualquer forma, o que ficou registrado foi o incrível legado dos dois grandes reinos, que um dia utilizaram todos os recursos que tinham para consolidar sua posição sobre o solo instável de uma ilhota ensolarada chamada Java.

E assim seguimos para Bali...