quarta-feira, 27 de maio de 2009

Old York, old York


A Inglaterra é um país antigo. E York é uma cidade mais antiga ainda. Foi fundada pelos romanos, em 71 DC. Depois passou pelas mãos dos Vikings, Anglo-Saxões e dos Normandos. Depois que tudo isso junto virou o que hoje chamamos de Inglaterra, York se tornou uma das fortalezas medievais mais poderosas e impenetráveis do país. A Casa de York era tão forte, mas tão forte, que entrou em guerra para tomar o poder e governar tudo. Esse episódio entrou para a história inglesa sob o nome de Guerra das Rosas (1453-1487).

Então York é isso: muros medievais, brasões, torres de pedra, ruas com nomes arcaicos e suas casas de tijolos vermelhos. E, claro, York Minster, a belíssima catedral gótica que pode ser vista de onde quer que se vá na cidade. A impressão que se tem, olhando para esse cenário, é de estar na Inglaterra do Rei Arthur, e que a qualquer momento irão aparecer soldados de armadura partindo para as Cruzadas.

No entanto, nada poderia estar mais longe da York atual do que clima de guerra. O que se tem no centro da cidade são uma infinidade de casas de chá e lojinhas charmosas, jardins, cafés, pubs tradicionais, áreas verdes... É uma cidade calma e ao mesmo tempo vibrante, e passeando despreocupadamente por aquelas ruas milenares e aconchegantes, é impossível não pensar na ironia do destino: A velha York é basicamente o oposto de Nova York, a cidade que foi batizada em sua homenagem no outro lado do Atlântico.

PS- Para ver todas as fotos de York, clique aqui.

quarta-feira, 15 de abril de 2009

A vida sobre trilhos


Outro dia me perguntaram o que eu mais gosto na Inglaterra. Na hora eu não soube bem o que responder, mas depois de ficar matutando por um tempo, cheguei à essa conclusão: eu gosto mesmo é da vida sobre trilhos.

A Inglaterra foi o primeiro país a ter trens, e Londres foi a primeira cidade a ter um sistema de metrô. As ferrovias estão por toda parte, e se ramificam pelo país e pela cidade como se fossem veias pulsantes. É impressionante o quanto a nossa vida aqui gira em torno de trens. Quando alguém pergunta onde você mora, a resposta não vem em forma de bairros ou ruas, mas sim de linhas e estações. Quando se quer ir a algum lugar, em 90% dos casos a principal preocupação é se há trens para lá e se eles estão operando adequadamente. E se o trem atrasar cinco minutos? Horror, horror.

E quer saber? É assim que tem que ser. Carro e ônibus devem ser apenas luxos ou opções adicionais, porque poluem e são muito estressantes. E, cá entre nós, viajar de trem é uma delícia. Não somente porque é rápido e prático, mas porque viagem de trem é relaxante. No trem, o tempo passa rápido e ao mesmo tempo devagar. Uma mistura de cadência e estabilidade que nos possibilita tirar o atraso da vida. Ler um jornal, ouvir música, estudar, dormir, conversar, pensar na morte da bezerra. Olhar a paisagem, se o trem estiver na superfície, ou esquecer do mundo lá fora, se for um trem subterrâneo. Mesmo quando está lotado, ainda acho melhor do que ônibus e engarrafamento.

Enfim. Vida longa à terra da Rainha, e vida longuíssima aos trens, pois eles merecem :)

PS- Na foto: a tradicionalíssima estação de King's Cross, no norte de Londres, em um raro dia de sol...

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

God save the Reading Week


Dentre tantas importantes invenções inglesas, essa (nem sei mesmo se foi inventada pelos ingleses, mas tudo bem) é uma das que considero mais geniais. Explicando: No meio de cada trimestre da universidade, há uma semana sem aulas que é chamada de Reading Week, a semana da leitura. A idéia é dar um tempo para que os alunos possam ler e processar o conhecimento adquirido até o momento, e para que os professores possa colocar suas atividades pendentes em dia. Assim, todos voltam às aulas com baterias recarregadas e preparados para as provas e trabalhos de final de trimestre.

Eu estava mesmo precisando de uma Reading Week. Entre os estudos e a recuperação das horas de sono, fico pensando o quão fantástico seria ter uma Reading Week em outras áreas da vida. Como seria bom de vez em quando dar uma desacelerada nas coisas pra poder organizar as pendências, sejam elas de trabalho, de estudos ou até mesmo sentimentais. "E as férias?", vocês podem me perguntar. Bem, férias é outra coisa. Férias é pra esquecer de tudo e só se divertir, coisa que não dá pra fazer quando se tem um monte de coisas que não deu tempo de organizar e pensar.

Então é isso. Reading Week já para todos nós, estudantes de universidades inglesas ou não. ;)

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Lembram da vista da minha janela? Aí está, todinha coberta de neve. A foto foi tirada naquele dia da pior nevasca da Inglaterra em 18 anos. Eu até pensei em fazer uma postagem sobre isso no blog, mas a verdade é que preferir sair pra brincar... :p

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Eu ia colocar uma foto da biblioteca da minha universidade, um belíssimo e imponente prédio gótico no centro de Londres. Mas a foto que eu tirei não ficou legal, então estou devendo um ensaio fotográfico decente sobre ela, que agora na Reading Week virou meu segundo lar.

Beijos a todos.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

A terceira margem do rio


Uma das sedes da minha faculdade fica numa avenida chamada The Strand. Literalmente, "A Margem". O caminho que liga a City, a Londres original, à cidade de Westminster, onde fica o Palácio de Buckingham, o Big Ben, o Parlamento e tantos outros cartões postais. O poder que deságua no dinheiro, seguindo os fluxos do rio Tâmisa...

A Margem já não é a mesma dos tempos antigos. Os Vitorianos, na busca por mais espaço, aterraram uma parte da área, que hoje se chama Embankment. Nos tempos áureos, a avenida teve a fama de ser "A mais bonita da Europa", com mansões suntuosas onde viviam os bispos e nobres, gastando fortunas e exercendo o poder aristocrático sobre a plebe. Isso do século XIII ao século XIX. No começo dos anos 1890, virou um point do teatro e dos espetáculos musicais. Hoje, dizem os tradicionalistas, está tudo decadente, sem os grandes palácios e o glamour. A Margem acabou, virou domínio popular.

E, ainda assim, quanta beleza. Quantos prédios históricos bonitos, quantas lojinhas charmosas, quantos pubs tradicionais e quantas igrejinhas interessantes. Aí eu fico pensando: Se é pra ser decadente, que seja assim, em grande estilo...

sábado, 24 de janeiro de 2009

Vida dura...


Blog em breve hiato devido ao período de adaptação com o começo da universidade. No meio da correria, um daqueles pensamentos nada a ver, mas que tem tudo a ver: Como deve ser difícil ser uma árvore neste país...

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Walking in the Winter Wonderland


Hoje de manhã saí de casa e estava nevando. Alguns céticos poderiam dizer: "Bem, é inverno, o que você deveria esperar?". Mas a verdade é que, assim como o sol, a neve é um artigo raro no clima londrino. Como Bill Bryson escreveu no já citado "Notes from a Small Island", a previsão meteorológica no Reino Unido é sempre a mesma, o ano todo: Clima seco e nublado, mas com possibilidade de sol e pancadas de chuva à tarde. Neve? Sim, claro. No norte do país e na Escócia. Mas em Londres, com toda essa gente e com toda essa poluição? Nah.

Mas eis que hoje a cidade amanhece mais agasalhada e encapotada que o normal. Tremendo de frio, uma mulher me confidencia no trabalho: "É o inverno mais gelado dos últimos tempos". E o corpo, com sua sabedoria ancestral, não nos deixa esquecer disso - Nas orelhas que ardem quando se caminha na rua, nas mãos que se fecham dentro dos bolsos, geladas apesar das luvas, na dormência que percorre o corpo todo, pedindo uma cama quentinha e camadas de edredom. No estômago que ronca de fome, como se o corpo dissesse: "Estou com frio, preciso de mais camadas de gordura". E você se sente mal e pra baixo, sem energia pra nada e sem vontade de sair de casa - É o winter blues que te pegou.

Meus amigos de zonas temperadas que me perdoem, mas esse negócio de inverno é uma viagem...

Na foto: Não sei se dá pra ver direito, mas é um dos campos de treino do Leyton Orient Football Club, todo branquinho de neve.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Feliz Boxing Day!


Hoje, 26 de dezembro, é Boxing Day. Dizem que tudo começou quando um certo rei (não me lembro quem), num ato magnânimo, resolveu distribuir presentes aos empregados, como forma de agradecimento pelos serviços prestados durantes as festividades de Natal.

Mas na verdade mesmo, o Boxing Day é o Dia Nacional Para Se Curar a Ressaca. É que aqui no Reino Unido a festividade de Natal acontece durante o dia 25, geralmente com uma grande refeição em família e, lógico, litros e litros de bebida alcóolica. Até porque não há muito mais o que fazer: nem o transporte público funciona no dia 25 de dezembro.

Bem, eles ficam tão bêbados que se esquecem até dos presentes, daí que alguns falam que só deixam pra abrir os pacotes no dia 26... :p

Enfim, num país em que a existência dos feriados teve que surgir a partir de um decreto de lei, ter dois dias seguidos de folga é o mesmo que ter a benção dos deuses. Bendito Boxing Day! :D

Na foto: O Convent Garden com as suas luzes de Natal.

sábado, 20 de dezembro de 2008

Canary Wharf, ou A Força da Grana


Imagine a Avenida Paulista. Agora transforme-a em um bairro, e desloque-a para uma área relativamente periféria da metrópole. Tire dela tudo o que for subdesenvolvido e humano: deixe apenas os arranha-céus imensos, os logotipos de banco, e as pessoas de terno falando desesperadamente ao celular. Enfim, tudo o que remeter diretamente ao mundo financeiro e ao seu ritmo de vida vertiginoso. Imaginou? Então coloque um rio no meio. E assim você terá mais ou menos uma idéia do que é Canary Wharf.

Se a City é produto da História, com o fluxo de dinheiro correndo por aquelas vias há séculos e séculos, Canary Wharf é a invenção do presente, do capitalismo que vivenciamos e conhecemos muito bem. É fruto da era yuppie dos anos 80 de Margaret Tatcher e do neoliberalismo dos anos 90 de Tony Blair. E, claro, agora sofre os danos do desastre econômico nos anos 00 de Gordon Brown - Um arranha-céu inteirinho teve que ser desativado com a falência do banco norte-americano Lehman Brothers há alguns meses.

"Wharf" é uma espécie de cais. E "Canary" faz referência às Ilhas Canárias, o lugar de onde vinham a maioria dos produtos que chegavam naquela parte do rio. O como e o porquê de Canary Wharf virar o que virou, eu realmente não sei.

Se você chegar lá de noite, poderá ver a maioria dos prédios de luzes acesas, as salas ocupadas, gente trabalhando incessantemente porque, em algum lugar do mundo, é dia e o dinheiro não pode parar. Mesmo nos pubs há telões que apresentam a cotação das bolsas, as taxas de câmbio e as notícias que podem abalar o mundo financeiro. Canary Wharf é como se fosse uma bolha que impede qualquer distração completa do assunto principal: dinheiro.

Será que é por isso que as pessoas que andam por lá parecem tão infelizes? Fica aí a pergunta.

OBS 1 - Cliquem aqui para ver mais fotos de Canary Wharf.

OBS 2 - Manterei esse layout por algum tempo, depois voltarei para o antigo. Ou colocarei um novo, ainda não sei... ;)

sábado, 13 de dezembro de 2008

Ah, se essa rua fosse minha...


Adoro a praticidade dos antigos. Como chamar um lugar que tem uma fonte termal muito famosa? "Bath". Como chamar uma rua que vende artigos baratos? "Cheapside" (essa da foto). E uma rua onde se vende carne de aves? "Poultry".

Salvador, que começou como uma espécie de fortaleza medieval, também tem uns nomes ótimos. "Pelourinho", "Rua Direita da (a que vai dar direto na) Piedade", "Praça da (Catedral da) Sé". E as ladeiras? "Ladeira da Misericórdia". "Ladeira da Preguiça". "Ladeira do Funil".

Todos são nomes que remetem diretamente ao uso do lugar, e guardam um pouco da história da ocupação do território, da maneira como as coisas se organizaram dentro de determinada cidade, e da especificidades de cada rua, ladeira, praça, etc. Afinal, mesmo que Cheapside não seja lá um lugar muito barato hoje em dia, pelo nome já dá pra imaginar um pouco de como era no passado...

Onde será que as coisas deram errado? De repente começaram a surgir nomes pomposos e completamente deslocados da realidade do lugar. Isso acontece principalmente no Brasil, onde se batizam ruas com nomes como "Rua Coronel Genevaldo Ferreira da Anunciação" (nome fictício, mas que poderia ser verdade). Alguém sabe quem é a figura? Não. Há alguma relação entre o nome e o lugar? Não. Na maioria dos casos, as pessoas simplesmente esquecem do nome da rua e dão a ela apelidos como "a rua da escola" ou "a rua do supermercado" ou ainda "a rua do prédio Tal".

Claro que há as cidades planejadas, onde as ruas atendem por números e, em muitos casos, faz até muito sentido. Dizem que Nova York é um desses exemplos. Brasília também, apesar de que lá o que complica não são as numerações, mas sim o fato de que todas as quadras parecem ser iguais.

Mas e quando o lugar é planejado, e ainda assim os nomes são completamente absurdos? Isso acontece no bairro da Pituba, em Salvador, que tem ruas com nomes dos estados brasileiros. Poderia ser até interessante, se a rua Amazonas não fizesse esquina da Rio Grande do Sul, ou se a rua Acre não fosse paralela à rua Bahia. Qual o sentido de ser planejado, se ninguém se dá ao trabalho de propor alguma lógica?

Quer saber? Queria mesmo era morar numa rua chamada "Um Dois Três de Oliveira Quatro", ou "A soma do quadrado dos catetos é igual à soma do quadrado da hipotenusa", ou ainda "Sou Pobre, mas sou Feliz". Porque, já que é pra ser absurdo, que pelo menos seja divertido. ;)

PS- Mudei o layout do blog, espero que agora esteja mais fácil pra ler. :)

domingo, 7 de dezembro de 2008

O sol... O sol? O sol!


Um dia desses eu saí de casa e estava fazendo sol. Caro leitor, se você não morar e nem nunca tiver morado nessa estranha ilhota chamada Grã-Bretanha, não saberá o que isso significa e nem entenderá o que eu senti naquela hora. Fazia o quê... Dias? Semanas? Desde que eu tinha visto o sol pela última vez.

Antes de vir para cá eu achava curioso o fato de os britânicos serem tão obcecados com o clima. E, chegando aqui, percebi que o que aparece nos livros e filmes é verdade: qualquer conversação entre britânicos acabará, inevitalvelmente, chegando nesse assunto. Existem lugares muito mais frios e com certeza existem lugares bem mais quentes. Em termos de temperatura, o clima da Grã-Bretanha é, digamos, relativamente ameno. Então, por que tanta reclamação?

A questão é a onipresença do trifásico básico na vida dos habitantes da ilha: céu nublado, vento e chuva. Não aquela chuva torrencial dos países tropicais, mas uma chuva fininha e irritante que parece entrar nos seus ossos aos poucos. E um vento cortante, gelado, que faz você se sentir como se suas orelhas tivessem virado pedaços de picolé. E o céu, ah o céu... Não se trata de uma simples cor quando se olha para cima, mas de toda uma luminosidade que impregna tudo de cinza.

E então, como um milagre da natureza, aparece o sol. E você se sente como se um peso tivesse sido tirado das suas costas. E lembra que sim, o mundo é belo e a vida vale a pena a ser vivida. E que toda a sua depressão anterior era causada por ele, o clima. E então começa a entender por que os britânicos ficam parecendo crianças quando estão debaixo do sol, e querem receber todos os raios de luz possíveis (qualquer que seja a intensidade), mesmo que isso signifique passar dos limites e tostar suas peles brancas.

Por isso, caro leitor, da próxima vez em que você olhar pela janela e o dia estiver ensolarado, pense em mim e em todos os moradores dessa ilha e sorria. Pois, acredite em mim, tudo parece muito pior quando não se tem luz.

PS- Vocês perceberão que a resolução desta foto é menor do que a das fotos postadas anteriormente. É que esta foi tirada com a câmera do celular. Eu sabia que não havia tempo hábil de ir em casa e pegar a câmera, pois quando eu voltasse o sol já teria se escondido. E sim, isso aconteceu de fato. :P